[Perto]

Nessa eterna dicotomia
eu sigo
com os pés amarrados
envolvidos pelas exigências constantes de ser.

Outros instantes são,
todos,
um perto
tão distante,
mas que agora,
não significativos,
representam o que deveriam representar
e que se tornou palavra
no momento em que não careciam definições.

Tenho olhos que brotam pelo corpo e enxergam mais do que deveriam.

[Quando terminar-ia]

Queria poder me livrar dessa ilusão que denomino nostalgia, um estado entre estados, ora cor rubra, ora cinza melancolia.
Desses momentos, o que há de novo, veja você que ironia, é a sombra sempre presente, da improvável monotonia.
E a mesmice que sempre me foi incômoda agora tornou-se minha guia, se eu digo: - vou à rua, ela diz: não deverias.

[ ; ]

Meus olhos amanheceram na aurora daqueles dias.

[Descaramento]

Quando tu quiseres, passa cá.
Não faço planos,
basta o já.

[Feito música]

Eis que foi tomado por um sentimento numa eventualidade. E este era contido. Diminuto no peito-universo. O peito era suficiente. Bastava-lhe.
Ora, mas o tal sentimento parecia ser misturado ao fermento!
E o pobre do peito, por mais que tentasse, não era mais capaz de conter-lhe.
E foi crescendo. Não parava.
O sentimento tomou-lhe todo o corpo, de modo que não havia espaço livre.
Ganhou proporções que o corpo não tinha. E o dono do corpo, teve que se pôr fora.
Agora era só sentimento.

[Quando a crise atinge o poema...]




Uma rima pobre no poema?
Tenha dó!
Então será essa e só.



[Campos de morango para sempre]

Desejo apenas uma palavra que defina este que sou agora. Talvez, traduzindo-me em palavra, possa entender o que se passa.
Levianamente, um sentimento apropria-se de mim, toma-me por completo e me confunde.
Evoco do mundo das palavras aquela que traduza esse sentir.
Mas elas, antes amigas e confidentes, agora parecem me rejeitar. Algumas acenam de longe, zombando de mim e dessa minha ausência. Outras são mais cruéis e passam enfileiradas, ao meu lado, as gargalhadas, sem ao menos cumprimentar-me!
Tento tocá-las, mas conheço o olhar que me lançam. É o mesmo olhar que me corrói o peito.
É o adeus nos olhos.
Sem elas, resta-me pouco. Porque embora eu estivesse só, ainda as tinha como companheiras.
Desejo apenas uma palavra, nada mais.
Talvez seja saudade, mas vai além disso. Além da falta.
A palavra que busco não tem som, tem a cor do vento e o tamanho do infinito.